Capítulos: "Agora ou Nunca"


(...) e lá ia ele caminhando, a passos incertos, por ruas onde seus pés jamais pisaram. O vento leve e gélido da noite desgrenhava seus cabelos já bagunçados. Tudo em volta lhe parecia fazer algum sentido, ainda que remoto. O cricrilar de um grilo ali, o barulho de uma folha seca sendo carregada pelo vento cada vez que tocava o solo aqui e a quietude peculiar daquela noite fatídica. Tudo fazia qualquer sentido, embora não fosse algo explicável dentro de sua mente tão congestionada. Ele sabia que, no fundo do seu peito, algo ainda o açoitava sem nenhum pudor, sem nenhuma piedade. Era o preço que ele tinha que pagar por depositar tanto sentimento em algo abstrato e superficial que ele carregou por pouco menos de nove meses. E doía amargamente. Só ele sabia o quanto essa dor o apunhalava dia após dia. Cansado de tentar remediar essa dor, ele estava decidido a enfrentá-la da forma mais fácil que lhe cabia.

O fantasma do passado o assombrava e ele precisava se livrar daquilo tudo, daquelas imagens que habitavam sua mente. Ele precisava, simplesmente, se libertar destas correntes do mal. Então, decidiu procurar por alguma contramão, uma saída ainda que imperceptível aos seus olhos tão cansados de chorar.

Aquela ponte familiar, agora no escuro, não parecia mais a mesma. Alguma coisa nela – e ele não podia decifrar o que era – o seduzia com veemência. Como chegou ali, não podia explicar mas o frio da noite o impulsionava a caminhar até a grade de proteção que parecia ceder a qualquer momento. Foi ali que ele parou por um tempo e observou, cautelosamente, a paisagem negra e sombria que envolvia aquele lugar tenebroso. Respirou fundo. Lágrimas se formavam nas bordas de seus olhos e as lembranças logo invadiam seus pensamentos. Ele apertou os olhos e balançou a cabeça tentando se livrar delas, mas eram persistentes e audaciosas. E a dor... aquela insuportável dor parecia voltar ao seu peito. Não podia mais chorar e os soluços logo se transformaram em um choro de dor, de desespero. E, à medida que ele tentava sufocar seus pensamentos, a dor crescia pouco a pouco. 

Era agora ou nunca. Não precisava mais esperar e, num átimo, se lançou no breu infinito. Ainda conseguiu gritar por sua liberdade e pela certeza de que agora não haveria mais dor, não haveriam mais lembranças, não haveria qualquer sentimento. Ele clamou pela certeza de que tudo, finalmente, se acabava (...)

Trecho de "O Ergástulo", de Diego Dittrich

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